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Os perrengues e as delícias do meu work exchange cuidando de huskies na Suíça

Você já se permitiu se entregar por inteiro à uma experiência? A ter medo, mas mesmo assim continuar seguindo a voz do seu coração? A chorar quando der vontade? A ir embora quando esse for o seu sentimento? A falar sozinho quando bater a solidão?

Eu te convido a conhecer a experiência incrível do Wallace, um leitor do Por Uma Vida Mais Rica que, a princípio, deixou o Brasil com o plano de fazer work exchange em uma ilha na Croácia. Mas, o que ele não sabia é que uma simples bagagem extraviada foi apenas o início para uma grande aventura de autoconhecimento, experiências únicas, perrengues e descobertas que mudaram para sempre sua forna de enxergar o mundo.

Texto de Wallace Fonseca (o texto é longo, mas te garanto que você não vai se arrepender!):

A VIAGEM

Sempre falei para meus amigos, e até para mim mesmo, que iria – e vou – conhecer todos os lugares no mundo mochilando por aí e decidi que os primeiros lugares seriam fora do Brasil.

Me deparei com o Work Exchange através do site Worldpackers. Não lembro como e nem por qual motivo entrei no site, mas foi como amor a primeira visita hahahaha. Comecei a ver os países disponíveis, os requisitos e comecei a mandar mensagem para os hosts com datas hipotéticas mesmo sem ter em mente uma viagem naquele momento. Era mais mesmo pra saber se era possível.

E não é que era? Os hosts me responderam e confirmaram dizendo que eu poderia ir!! Minha felicidade foi absurda, mas por um momento lembrei que trabalhava de segunda a sexta e não tinha dinheiro para uma viagem desse tipo. Fechei o site. Desisti! Jamais pensaria em ir para Nova Zelândia ou qualquer outro país sem ter pelo menos uns 30mil na conta e uma empresa própria :p

Meio de 2016, faltando 1 ano pra terminar o curso técnico e precisando de um estágio para concluir o curso, converso com meus chefes no trabalho, explico toda a situação e consigo minha demissão pra dezembro. A princípio o pedido de demissão era pra procurar um estágio, porque não dava pra trabalhar de manhã (trabalhava da 06:00h às 16:00h), minhas aulas eram a noite e eu não teria tempo pra fazer um estágio. Então decidi que teria que sair do trabalho!

Acredito que foi em setembro que tudo mudou. Esse foi o mês que recebi um e-mail do Worldpackers informando que tinha uma mensagem de um host da Croácia. Fiquei surpreso, pois não lembrava de ter enviado nenhuma mensagem para lá…

…Bom, era um convite! Na mensagem dizia que o host tinha gostado do meu perfil e gostaria da minha ajuda para construir um hostel na ilha de Bol, na Croácia. Nem preciso dizer que no mesmo instante parecia que eu tinha colado um sorriso de ponta a ponta no meu rosto. No momento eu pensei: “ Vou ser demitido com todos os direitos em dezembro. Estarei de férias no curso. Por que não me dar esse presente e finalmente dar início a esse sonho? “

Fiz os cálculos de quanto ganharia da rescisão de contrato e do FGTS e decidi colocar a viagem em prática. Minha namorada não poderia ir comigo, mas mesmo assim ela me incentivou nessa idéia, sempre alertando para analisar tudo com cautela.

De início, meus pais acharam que era besteira e que eu estava blefando. Pensavam que eu desistiria da ideia e ponto. Só que não foi bem assim.

De passagem comprada, faltando 2 meses para a viagem, eles começaram a ficar tensos. Começaram a perguntar sobre o host, o local, o que eu faria, com quem iria, pediram para verificar ficha criminal do host, se tinha família e etc, etc, etc. Com muita conversa, consegui que ficassem ‘’tranquilos’’.  Ao menos meu pai pareceu ficar tranquilo, porque minha mãe nada adiantava hahaha.

Dia 12 de dezembro, com a mochila pronta, todos os documentos possíveis guardados, com um medo que nunca havia imaginado sentir e tentando me fazer abandonar a ideia, seguimos para o aeroporto. Com check-in feito e de frente para o portão de embarque vem a melhor parte – ou seria a pior? – Beijos mãe, beijos irmão, beijos namorada linda. Nos vemos daqui a 49 dias se Deus quiser.

Sigo sozinho sem olhar para trás, para uma viagem de 14 horas de ida com lágrimas nos olhos, sorriso na cara e coração apertado com medo do que viria pela frente.

IMIGRAÇÃO E EXTRAVIO

Antes de contar sobre a viagem, preciso explicar porque decidi viajar fazendo work exchange. Foram 2 motivos: por ser mais econômico, pois dessa maneira ficamos na casa dos hosts ou algum lugar destinado para os voluntários e não pagamos por isso; e pelo intercâmbio cultural, já que temos a chance de conviver 24hrs por dia com seus costumes, idioma, culinária. Sem falar na amizade que você faz quando há outros voluntários.

Meu percurso para essa viagem foi o seguinte: Rio de Janeiro -> São Paulo -> Madrid -> Áustria. Da Áustria, meu plano seria pegar um ônibus até a capital da Croácia, Zagreb, e de lá um ônibus pra Split e, por fim, um catamarã pra cidade onde ficaria, que seria Bol – não sei se percebeu, mas usei verbos no futuro do pretérito, ou seja, eram coisas que aconteceriam, mas não aconteceram – ou melhor, não aconteceram como desejadas  –  por motivos que vou explicar já já.

Antes de viajar, li muito sobre a parte da imigração, como era, o que eles poderiam pedir, quais os tipos de documentos levar e etc etc. Fiquei com um medo da por** quando descobri que minha imigração seria feita no aeroporto onde a maioria dos brasileiros – pelo menos no passado – ficavam detidos e eram deportados: o aeroporto de Madrid- Barajas. Por conta disso, levei todos os documentos possíveis para qualquer situação. Se perguntassem o tipo sanguíneo do meu pai, eu saberia dizer e comprovar com o exame de sangue dele que estava cuidadosamente alocado na pasta de documentos.

Meu vôo de São Paulo pra Madrid atrasou uns 50 minutos e por consequência, cheguei, obviamente, 50 minutos atrasado para o vôo de Madrid para Áustria, que no caso seria 30 minutos  depois da chegada à Madrid. Ou seja, se o vôo não tivesse atrasado, eu teria 30 minutos para caminhar tranquilamente pelo quarto maior aeroporto da Europa ao invés de correr desesperadamente em busca do meu portão de embarque para Áustria.

Foi uma loucura total, porque eu não sabia para onde ir. Fui me guiando pelas placas, perguntando às pessoas e enquanto corria pelo aeroporto, vejo: imigração, penso: “fodeu”. Sigo em diante e me direciono para o guichê já preparado para responder qualquer pergunta.

Agente: “Passaporte”, eu entrego.
Agente:” Vai pra onde?, eu falo: “Viena”.
Agente:” Pode ir!”, depois de carimbar meu passaporte.

Levei uma pasta de documentos pesando quase 1 kilo (brincadeira, é claro) pra nada? De qualquer maneira nem tive tempo para ficar surpreso e rindo à toa porque estava atrasado 20 minutos para meu voo. Não tinha passado pelo raio-x e nem sabia pra onde ir. Interessante que quando se está nessas tretas a gente faz amizade muito rápido.

work exchange na Suíça - Por Uma Vida Mais Rica

Com 35 minutos de atraso, encontro meu portão de embarque, explico a situação – ou melhor, tento explicar a situação, visto que meu inglês nem estava tão bom – e achando que estaria tudo bem e que eu poderia viajar em paz para a Áustria, recebo a notícia que minha mochila não estaria nesse vôo, pois achavam que eu não embarcaria no mesmo e que eu teria que resolver no ‘’achados e perdidos’’ quando eu chegasse em Viena.

Entro no avião, todos me olham como se eu fosse o culpado pelo atraso, sento no pior lugar possível e de quebra, não teve comida no vôo. Tudo bem, com ‘’sorte’’ não fui barrado na imigração.

Já no aeroporto de Viena, a primeira coisa que fiz foi procurar o Lost and Founds. Tava muito nervoso porque precisaria explicar a situação toda em inglês e, como disse lá em cima, meu inglês não estava tão bom, então não estava nem um pouco confiante…

Bom, posso dizer que deu tudo certo mesmo tendo que esperar 6 horas pra minha mala chegar no aeroporto. A companhia aérea disse que eles entregariam onde eu fosse ficar, mas eu ficaria numa cidade relativamente pequena dentro de uma ilha, então, não, eles não entregariam lá. O mais próximo seria longe e demoraria, então decidi ficar no aeroporto esperando.

Quase chorei quando vi minha verdinha (minha mochila) passando pela esteira. Foi muito gratificante sentir o peso dela nas costas e saber que naquele momento poderia dar seguimento à viagem.

Saí do aeroporto e segui de metrô para a Erdberg Station, onde lá pegaria o ônibus para Zagreb, capital da Croácia, com conexão na Eslovênia. Fiquei 4 horas em Liubliana ou Ljubljana, capital da Eslovênia esperando o outro ônibus que seguiria para Zagreb.

Uma dica: Se for viajar no inverno por esses países e tiver que esperar de madrugada nas estações, leve meias! Muitas meias! Acredite, você vai precisar!

BUNGEE JUMP

work exchange na Suíça - Por Uma Vida Mais Rica

Decidi ficar 2 dias em Zagreb no hostel Chillout – muito bom por sinal – pra conhecer um pouco sobre a cidade. Não queria ir muito longe por causa da grana, então andei pelas proximidades mesmo. O próximo passo seria seguir direto pra uma cidade chamada Split, onde lá pegaria o catamarã pra casa do Host.

Bom, sempre quis pular de Bungee Jump. Antes de viajar, pesquisei sobre spots de bungee jump na Croácia e achei um em Zadar, uma cidade entre Zagreb e Split. Pensei: ”Por que não? “

De Zagreb segui pra Zadar, e foi lá que tive uma das histórias mais cômicas – pra não dizer desesperadora – da viagem. Antes de seguir rumo a Zadar, eu já vinha conversando com a empresa onde faria o salto. No Brasil mesmo já havia pesquisado sobre eles, visto fotos, se eram confiáveis e etc. Por e-mail eles disseram que me buscariam na rodoviária de Zadar e depois do salto me deixariam lá para poder seguir minha viagem.

Quando um deles acenou para mim, fiz apenas que sim com a cabeça (não perguntei absolutamente nada – eu fui burro, eu sei), peguei minha mochila no ônibus e o acompanhei até o carro. O motorista do carro não falava inglês, o que à primeira impressão o tornava grosso e antipático.

Antes de entrar no carro, perguntei ao primeiro se eles eram do Bungee Jump e ele confirmou. Sentado no carro no banco de trás, eu só pensava que tinha me metido numa enrascada, que seria estuprado e meus órgãos vendidos no mercado negro.

O motorista só falava croata e toda hora eles ficavam conversando e rindo – rindo muito – eu imaginava coisas loucas, como se eles estivessem tramando algo, vendo quem ficaria com o que quando sumissem comigo. Vez ou outra o primeiro me perguntava algo e eu respondia normalmente, mas mesmo assim eu já estava me despedindo da minha família mentalmente.

Se eu fosse morrer, não morreria sem lutar. Pensei em tudo: desde pular do carro se eu percebesse que estavam me levando para algum lugar estranho, até tentar quebrar o pescoço dos dois e correr. Como o primeiro falava um pouco inglês, eu ia perguntando coisas relacionadas a nossa conversa por e-mail. Perguntei o valor do salto, o nome dele, o nome da empresa e fui ficando mais tranquilo a medida que ele ia confirmando as informações passadas pelo e-mail.

Só fiquei mais relaxado quando entrou um outro rapaz que eu já tinha visto nas fotos no site da empresa e ele também falava inglês, então fiquei muito mais tranquilo. O restante do percurso foi super de boa.

O salto foi foda para caralho. Com 55 metros abaixo de mim, respirei fundo e com o sorriso na cara, saltei em direção ao mar adriático… Foi uma das sensações mais loucas que tive na vida. Por um momento pensei que meu cérebro iria explodir com a velocidade que alcançava, mas alguns segundos depois, senti a corda puxar meu tornozelo e soube que tinha acabado.

Agradeço imensamente à Izazov Tours pela experiência sem igual. Agradeço ainda mais pela generosidade de terem me buscado e deixado na rodoviária. Definitivamente recomendo a todos que forem visitar a Croácia.

“FAÇA COM QUE O NÃO PLANEJADO, SEJA PARTE DO PLANO “

Depois de um longo e radical dia, chego na cidade de Split na parte da noite. A cidade, à primeira impressão me pareceu bem pacata. Como a rodoviária é em frente ao porto onde saem os catarmarãs para as ilhas, estava bastante frio.

Com cara de gringo, e um mochilão nas costas, não tem como não dizer que era turista. Após 5 minutos depois de descer do ônibus, me para um senhor na faixa dos 60 anos, mas com cara de surfista, perguntando se eu precisava de um lugar para dormir. Àquela hora não conseguiria nenhum catamarã para me levar para Bol e muito menos alguém para me buscar quando chegasse lá. Disse que sim, mas nada tão caro. Informei a faixa de preço que eu estaria disposto a pagar e então ele foi me conduzindo pelas ruas da cidade.

Na Croácia, usa-se a moeda chamada Kuna, onde 1 Kuna equivale aproximadamente 0,50 centavos.

Como já era noite, aquela parte da cidade estava relativamente vazia e algumas ruas eram escuras. Olha, eu moro no Brasil. Sou desconfiado mesmo. Infelizmente qualquer boa ação que eu receba, nos primeiros momentos eu fico desconfiado até descobrir a real intenção do indivíduo.

Chegamos até a entrada de uma catedral e estranhamente ele começou a entrar. Fiquei pensando onde raios era esse hostel que ficava dentro de uma catedral. Juro que eu não sabia. Era como se a catedral fosse um mini condomínio. Tinham lojas, restaurantes, bares, muitas pessoas dançando e curtindo e muitas placas de hostels. Se eu estivesse sozinho jamais entraria na catedral e jamais teria conhecido as pessoas que conheci no hostel onde fiquei. Tem coisas que parecem que precisam acontecer.

Lá dentro, ele me guiava por vielas e mais vielas. Tentou sem sucesso em alguns hostels, mas encontramos um, o Meri Hostel, onde fiquei pelos 3 próximos dias.

Quando comentei que as coisas não aconteceram como planejadas, foi por que antes de entrar no avião no Rio de Janeiro, eu tinha planejado tudo cuidadosamente: o ônibus que eu pegaria até Zagreb num determinado horário quando chegasse no aeroporto em Viena; o outro ônibus que pegaria até Split, que eu já sabia que tinha; e o catamarã que eu pegaria para chegar em Bol. Nada disso aconteceu porque minha mala foi extraviada, atrasou tudo e tive que cancelar o ônibus.

work exchange na Suíça - Por Uma Vida Mais RicaPor ter cancelado o ônibus, cheguei em Zagreb em um outro horário, na qual não tinha ônibus para Split naquele dia; e por não ter tido ônibus para Split, acabei mudando a rota para Zadar, consegui fazer o salto e ainda sim consegui ônibus par Split logo em seguida.

O que quero dizer é que nem sempre vamos conseguir seguir com o planejado e isso é bom, pois nos leva a situações onde precisaremos agir diferente, pensar diferente. Pode nos levar a situações inesquecíveis. Ou até mesmo desesperadoras. Mas faz parte!

Acredito que essas situações que acontecem, mas que não são pensadas antes, nos fazem crescer. Amadurecer. Então, se algo não acontecer como esperado, não reclame. Faça com que o não planejado, seja parte do plano.

“LEGAL-MAS-NÃO-TÃO-LEGAL”

Em Split deu pra conhecer alguns lugares apesar de não ter feito nenhuma excursão, pois como era inverno, muito dos passeios que queria fazer não estavam disponíveis, mas tudo bem. O dinheiro que economizei dos passeios, gastei em mais 2 rabiscos pelo corpo hahaha.

No domingo fui para o porto pegar o catamarã até Bol. Aliás, não. Não era mais Bol. Esqueci que agora começa a parte “legal-mas-não-tão-legal-assim da viagem”.

Antes de seguir pra Croácia, pesquisei sobre Bol e o que tinha ao redor pra fazer. Apesar de ser pequena, possui bares, boates, praias – inclusive uma das mais famosas da Croácia, Zlatini Rat – e além do mais o hostel tinha piscina. Excelente: depois de um dia de trabalho curtir uma saída na rua com os outros voluntários, fazer trilhas e tudo mais. Pois é, nada disso aconteceu!

Fiquei sabendo 2 dias antes de chegar em Split que não ficaria mais em Bol. Tudo bem, mesmo que fosse em outro lugar não poderia ser ruim. “Pô, estou na Croácia” – pensei, “Qualquer lugar que eu fique vai ser irado”.

Ficamos (eu e mais 5 voluntários brasileiros) alojados numa casa no interior de Supetar. Quando digo interior, é interior mesmo. Pra quem conhece, pior que Antônio Prado de Minas. Não tinha absolutamente nada pra fazer. Íamos trabalhar às 10:00h e voltávamos 17:30h já parecendo que era madrugada pois escurecia absurdamente rápido.

work exchange na Suíça - Por Uma Vida Mais Rica

Os primeiros 3 dias de trabalho foi maneiro: acordar cedo num frio da colina (variava de 5°C a  -3°C quando ventava muito), seguir pro batente, procurar pedras achatadas, aprender a usar a betoneira, carregar saco de cimento e baldes com concreto. De almoço comíamos sopa com pão – muito bom por sinal – e a tarde nos era oferecido cachaça croata.

Chato era chegar em casa 17:30h e ir deitar pra assistir filme no celular. Todos os voluntários dependiam do carro do host pra sair, seja pro mercado, pra cidade, pra onde fosse. Estávamos realmente isolados de tudo. Não tinha pra onde ir nem andando. O centro da cidade ficava a 20 minutos de carro e mesmo assim lá não tinha muito a ser feito.

Veja bem, em momento algum eu reclamei e nem estou reclamando agora. Eu sempre tento tirar proveito de todas as situações, inclusive as desagradáveis. Acontece que apesar de tudo, fui para me divertir e não apenas pra trabalhar. Realmente era muito chato chegar na casa e não ter NADA pra fazer. O host quando chegava ia dormir ou ficava assistindo televisão e não tinha transporte público e muito menos Uber.

O chato disso tudo é que em MOMENTO ALGUM o host falou pra mim – e nem pros outros voluntários – que ficaríamos numa casa no interior sem poder fazer nada. Em seu perfil estava tudo descrito para ficar em Bol. Inclusive tinha o endereço de lá, as fotos, informações também. Eu fiquei sabendo que íamos ficar em outra cidade porque um outro voluntário brasileiro que estava lá a mais tempo me avisou quando mandei mensagem pedindo mais informações. Uma semana depois de chegar na casa do host, já estava procurando outro lugar pra ficar.

RUMO À NEVE

Exatamente 12 dias depois, eu saí rumo a Zurique, Suíça, com o intuito de passar o Réveillon e depois seguir para Bienna (Biel ou Bienne) para cuidar de 3 magníficos huskies.

Na Suíça, o meio de transporte público que mais se destaca é o trem seguido dos ônibus. São bem caros comparados aos do Brasil, porém são extremamente bem preservados e pontuais. Preciso repetir: muito pontuais. Cada estação de trem ou ônibus possui algumas telas com os horários dos próximos carros. Se está na tela “O próximo trem para Horgen chega em 23:37h”, acredite ele vai chegar às 23:37h e não 23:35h ou 23:40h. Na minha opinião, acho justo pagar R$ 30,00 de passagem quando você tem conforto, segurança, pontualidade e qualidade.

Um franco suíço (CHF) equivale a 3,37 reais. Não é um valor tão alto comparado com a libra esterlina por exemplo, que é absurdamente mais cara, porém o que encarece a viagem pela Suíça é o custo das passagens e da alimentação.

O Réveillon em Zurique foi iradíssimo, apesar de estar sozinho, com saudades dos meus amigos, dos meus pais, do meu irmão e da minha namorada. Tentei fazer amizade, mas não é tão simples quanto parece. As pessoas lá são muito reservadas e eu além de ser tímido, estava com MUITO frio, então desisti da ideia e fiquei conversando comigo mesmo em português. Ninguém entendia nada quando me olhavam, mas a ideia era essa mesma. :p

No dia 01/01/17 segui para a estação de Bienna onde meu host, Thommas, estaria me aguardando. Bom, antes de falar sobre a experiência de trabalho voluntário na Suíça, preciso explicar como fui parar lá.

Ainda na casa do host em Supetar, uma semana depois de ter chegado, já estava procurando outro lugar para ficar devido ao “pequeno imprevisto” ocorrido. Eu já conhecia o site Workaway, mas, assim como o Worldpackers, nunca acreditei que fosse dar certo, e então deixei de lado. Um dos voluntários lá na casa me indicou este, e no mesmo dia fiz minha inscrição no site.

Comecei a procurar locais próximos à Áustria porque meu vôo de volta sairia de lá. Gostaria muito de ter ficado na Polônia, mas devido a distância, desisti da ideia. Nesses sites de voluntariado, é muito importante ler todo o perfil do host, os feedbacks de outros voluntários, analisar fotos, e claro, você precisa gostar do que ele propõe. Não adianta nada você se candidatar a uma vaga onde você sabe que vai trabalhar carregando peso, cozinhando, ou qualquer coisa que não esteja disposto a fazer.

work exchange na Suíça - Por Uma Vida Mais Rica

Mandei mensagens para vários hosts da Itália, Alemanha, Eslováquia, Suíça na tentativa de sair de lá o mais rápido possível. Muitos me responderam, mas a maioria dizia não estar disponível para o período de tempo que eu pretendia ficar, outros só aceitavam casal, outros disseram não ter mais vagas.

Um belo dia, encontrei um host da Suíça que precisava de ajuda pra cuidar de 3 huskies: Hinata, Akamaru e Sydney. O trabalho consistia em levar os cachorros para passear na floresta 3-4 vezes por dia em troca de um quarto e alimentação.

Na descrição, o host pediu experiência com cachorros e colocou ênfase que o voluntário precisava ter um bom condicionamento físico para o trabalho porque, não importaria o clima, fosse sol, chuva, neve ou vento, precisaria levar os 3 huskies para passear.

“Bom”, eu pensei, “tive dois poodle toy. Três huskies não podem ser tão diferentes assim”. Enviei mensagem, e pra minha surpresa, o host respondeu. Conversamos e ele me aceitou em sua casa até o dia que eu iria embora. Feito isso, conversei com o primeiro host, fui bem sincero com ele dizendo que não tinha me candidatado para ficar preso dentro de casa e informei que iria embora dali a 2 dias. Ele aceitou numa boa, e tudo pronto. “ . Pela primeira vez, vou fazer um boneco de neve” – pensei.

Arrumei minha verdinha pela segunda vez e partiu Suíça!

AKAMARU, HINATA E SIDNEY

Akamaru, o imponente, porém o preguiçoso; Hinata, a misteriosa; Sidney, a princesa caçadora, porém a peidorreira. Foram os três huskies que me receberam quando entrei pela porta da casa de Thommas em Port – Biel/Bienna.

Esses três huskies foram os responsáveis por uma das melhores experiências da minha vida!

Meu dia começava às 08:00h da matina quando os levávamos para um longo passeio variando de 4 a 9 km (1-2 horas) pela floresta. Geralmente era um passeio super tranquilo e vez ou outra a gente encontrava um coelho ou um veado saltitando inocentemente pela trilha. Quando isso acontecia era tenso, pois os cachorros partiam atrás e eram bem fortes. Nada comparado a dois poodle toys hahaha. Sorte a minha que eu já andava preparado para esse tipo de situação pois o Thommas havia me alertado sobre.

work exchange na Suíça - Por Uma Vida Mais Rica

Teve uma vez em Grindelwald que estávamos descendo uma rua numa calçada bem escorregadia quando, simplesmente, os cachorros avistaram um GATO. É…isso mesmo.. Um gato. Foi tenso porque dessa vez eu não esperava. Eu estava segurando a Hinata e a Sidney quando os três – Akamaru estava com o Thommas – começaram a latir e a puxar freneticamente, avancei uns 2 metros mais ou menos numa mistura de correr e tropeçar até o momento que achei uma mureta e consegui me estabilizar.

Os três huskies tinham o costume de caçar ratinhos na floresta, mas a que mais se destacava era Sidney. É incrível a habilidade que ela tem de DO NADA, pular em cima das folhas, cavar freneticamente e sair com um ratinho pendurado na boca. Eu sei eu sei, coitadinho do ratinho? Pensei exatamente a mesma coisa quando vi a primeira vez, mas depois passei a entender que é o instinto deles. Eles corriam atrás dos outros animais: coelhos, veados, esquilos, mas nunca os vi pegarem e, além do mais, Thommas também não deixava que o fizessem. Acontece que os ratinhos ficavam próximos demais da gente e quando menos se esperava, já vinha um deles com o bicho na boca.

Depois que chegávamos do passeio matinal, tomávamos café, eu limpava a casa e relaxava um pouco. Poucos antes do almoço, por volta de 12:00h – 12:30h eu saía com eles para um passeio curto de 30-40 minutos. Thommas estudou por muito tempo culinária, então praticamente todo dia era uma comida diferente e deliciosa. Esse é o interessante de quando se viaja fazendo Work Exchange, porque acaba sendo mais fácil conviver com os moradores, fazer parte da rotina deles, aprender mais a fundo sobre a cultura, experimentar uma comida diferente que não existe nos restaurantes.

Com certeza é possível fazer todas essas coisas quando se viaja de modo “tradicional”, mas acredito ser mais fácil quando se faz o Work Exchange.

Depois do almoço, eu tinha um tempo livre até o próximo passeio que era as 17:00h, mas acabava ficando em casa lendo ou brincando com os huskies mesmo, e vez ou outra a gente saía pra fazer compra no mercado. O passeio das 17:00h era um passeio longo, ou seja, andávamos em torno de 4-9 km dependendo da trilha e eu sei disso porque sempre marcávamos no aplicativo Runstatic. À noite, por volta das 21:00h, eu levava os dogs por um passeio curto na rua, mas muitas vezes eu acabava voltando mais rápido do que esperava porque o Akamaru tem medo de escuro e ficava “empacando” quando eu tentava ir por um caminho.

Às vezes Thommas me levava pra fazer passeios pela Suíça e com isso visitei algumas cidades como Interlaken, Lucerna, e um vilarejo no meio dos alpes, Grindelwald.

Foi assim, andando de 20 – 40 km por semana, visitando outros lugares, me alimentando muito bem, conversando em inglês tão bem que eu nem acreditava – com erros é claro, mas bem – que passei as 4 semanas seguintes.

Dia 29/01/17, com mochila pronta – mais pesada do que nunca com vários chocolates – Thommas me levou até a rodoviária pra eu pegar o bus que seguiria até a Áustria. Estava com saudades de casa…

[…]

CASA

Admito que foi triste e chorei um pouco quando fui me despedir dos irmãos de 4 patas. O mais incrível, ou estranho, foi que no dia que eu estava indo embora, os três ficaram latindo e se esfregando em mim, coisa que eles não faziam. Hinata raramente ficava comigo, e nesse dia ela ficou pulando em cima de mim, me lambendo, latindo. Não sei se foi apenas coincidência ou se eles sentiram algo. Talvez eles estivessem felizes por eu estar indo embora, já que posso ter sido um pé no saco pra eles, mas acredito que não foi isso.

Esses três cachorros tinham algo diferente: eles tinham personalidade. Com certeza todo mundo que tem cachorro vai dizer que o seu também tem personalidade, e eu concordo com isso. Mas esses três têm algo diferente. Tive minhas razões pra acreditar nisso.

Na rodoviária me despedi de Thommas, e segui até o aeroporto da Áustria pra pegar meu vôo de volta. Com check-in feito e mala despachada, sento na minha poltrona e começo a lembrar de todas as coisas que vivi nesses 49 dias. Fiquei feliz por ter tomado a decisão certa: ao invés de ficar com medo e não ter feito nada disso, com medo mesmo eu comprei a passagem, arrumei minha mala e fiz meu roteiro; com medo mesmo liguei o foda-se e fui. Com medo. Mas fui.

CUSTOS

Bom, admito que gastei mais do que tinha planejado pelo de fato de não ter imaginado que iria pra Suíça. Eu levei 1000 euros (aproximadamente R$ 4000,00) + cartão de crédito. Inicialmente eu pensei que esses 4 mil reais seriam mais que suficientes – e de fato seria, se eu não tivesse viajando de ônibus toda hora – mas como decidi algumas coisas de última hora, acabei por gastar mais.

Detalhadamente:

work exchange na Suíça - Por Uma Vida Mais Rica–  R$ 2865,00 – Passagem ida e volta;
–  R$ 4000,00 (1000 euros) que converti no Rio de Janeiro mesmo e foi gasto com passeios, alimentação e passagens;
–  R$ 3000,00 que gastei parcelando alguns presentes, também passagens de ônibus e alimentação;

Teve coisas que comprei que não deveria e teve coisas que deveria ter comprado, mas não o fiz, mas acredito que faz parte. Se eu simplesmente tivesse ido direto pra casa do host na Croácia, eu teria economizado uma bela quantia, mas eu não teria feito Bungee Jump, não teria conhecido Zagreb, não teria feito os amigos que fiz em Split e nem teria visto as coisas que vi. Qual seria o propósito da viagem então?

Caso você esteja planejando viajar eu te digo: Vá! Quando puder, mas vá! Simplesmente. Não deixe que o medo do incerto te faça perder a coragem.  Vá sozinho, vá com namorada (o), vá com amigos… se permita esse momento. É incrível as coisas que podemos fazer quando queremos.

Um livro que me incentivou e me ajudou muito foi do Paulo Coelho: o Alquimista. Leia e entenderá.

work exchange na Suíça - Por Uma Vida Mais Rica

NÃO sou filho de papai, meus pais não são ricos, não tenho carro e nem uma empresa gigante. Trabalhei durante 3 anos em um hotel e com o dinheiro da rescisão de contrato, pude me dar de presente essa viagem. Sou viciado em tatuagens e pretendo fazer uma em cada país que for. Vou conhecer o mundo. Quero e vou voluntariar pelo mundo. Quero colecionar sorrisos e bandeirinhas na mochila. Quero ter amigos em cada vilazinha do planeta. Amigos de verdade, não amigos pra curtir fotos. Se precisar de ajuda, me grita! Só não pede dinheiro porque torrei tudo na viagem. Wallace Fonseca. Facebook

Post Author
Amanda Barbosa

Comentários

3 Comentários
  1. postado por
    Wallace Fonseca
    nov 6, 2017

    Karolina Menosi, desculpa não responder antes.. Juro que só vi os comentários agora!
    Fico extremamente feliz sabendo que de alguma forma eu consegui te passar essa coragem pra seguir independente do medo. Sua viagem vai ser foooooda! Com certeza vai passar por momentos desesperadores, situações loucas que nunca imaginou que poderia estar, por momentos incríveis que faz você pensar que tomou a decisão certa em ter ido, mesmo com medo! Simplesmente vá! Todo esse lance do idioma, de não saber falar muito bem, é besteira. Sempre há a comunicação, mesmo que não seja verbal.
    Muito obrigado por ter lido!
    Boa viagem, aproveite e depois conta aqui como que foi!

    PS: Brigadão mais uma vez Amanda!

  2. postado por
    Amanda Barbosa
    jul 10, 2017

    Oi Karolina, tudo bem? Você não sabe como fiquei feliz ao ler seu comentário. Isso mostra que o blog está caminhando na direção certa e cumprindo com o seu objetivo de ajudar e encorajar pessoas a concretizarem seus sonhos.

    Aproveitando, quero convidá – la a relatar a sua experiência com Work Exchange! Vou adorar saber mais um pouquinho dela.

    Se topar, é só me enviar um email no porumavidamaisrica@gmail.com, que a gente acerta os detalhes.

    Beijão

  3. postado por
    karolina menosi
    jul 6, 2017

    Wallaceeeee, de deus!! Li o texto entre lagrimas e sorrisos, que relato incrível, que energia boa e encorajamento próprio e (acredite, tambem alheio). Foi muito bom ler sobre sua experiencia, hoje mesmo mais cedo estava contando que estou me preparando para minha primeira viagem sozinha com inglês básico e todo aquele medo e insegurança no pacote, sendo que viajarei 4 meses sendo 2 na europa e 2 aqui mesmo no Brasil. Ou seja, estava dizendo o quanto to criando monstros sobre voluntariar, estar sozinha, sem falar muito bem inglês e em outro país as vezes me soa como insanidade hahahahhaa. Mas depois de ler isso bateu aquela paz de que está tudo ok e ficará tudo bem e se sair algo do planejado estará tudo bem também. A vida é muito curta pra encanar com coisas que nem aconteceram ainda e nem sabemos se vai acontecer, não é mesmo? Obrigada mesmo, por compartilhar sua experiencia e que você visite todo esse mundão aí, muita energia positiva e luz na sua jornada.

    (Amanda) mais uma vez gratidão imensa por conceder seu blog para essas pessoas incríveis com historias lindas.

    Um beijão ♥

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Por Uma Vida Mais Rica ☆Se reinventando na maneira de viajar o mundo. Colaboração + tecnologia = experiências ricas (e econômicas)☆by Amanda Barbosa 👻Snapchat: vidamaisrica

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